domingo, 19 de fevereiro de 2017

As mensagens de SMS e os direitos fundamentais ou uma República de polícias e bufos:

miguel_reis
A questão das mensagens de SMS trocadas entre o ministro das Finanças português, Mário Centeno e um gestor bancário convidada pelo governo para a administração da Caixa Geral de Depósitos suscita sérios problemas no plano dos direitos fundamentais.
É certo que o artº 178º,5 da Constituição da República determina, sem margem para dúvidas, que “as comissões parlamentares de inquérito gozam de poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”.
Mas é mais do que duvidoso que, por isso mesmo, possam violar o sigilo das comunicações privadas.
As autoridades judiciais não têm poderes para tanto, exceto num quadro muito limitado, a benefício da investigação criminal de crimes graves.
O artº 134º,1 da Constituição é inequívoco no sentido de que “o domicílio e o sigilo da correspondência e dos outros meios de comunicação privada são invioláveis.er jurisprudência”
O nº 2 dispõe que “a entrada no domicílio dos cidadãos contra a sua vontade só pode ser ordenada pela autoridade judicial competente, nos casos e segundo as formas previstos na lei.”
O nº 3 do mesmo artº 134º determina que “ninguém (nenhuma autoridade) pode entrar durante a noite no domicílio de qualquer pessoa sem o seu consentimento, salvo em situação de flagrante delito ou mediante autorização judicial em casos de criminalidade especialmente violenta ou altamente organizada, incluindo o terrorismo e o tráfico de pessoas, de armas e de estupefacientes, nos termos previstos na lei.er jurisprudência”
Na mesma linha, norma da mesma família, a do número 4, estabelece que “é proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na lei em matéria de processo criminal”.er jurisprudência
O Código de Processo Penal define, com extrema precisão os quadros em que podem ser excecionadas essas regras constitucionais.
O artº 177º do CPP regula as buscas domiciliárias, determinando que elas só podem realizar-se entre as 7 e as 21 horas e que têm que ser ordenadas ou autorizadas por um juiz, sem prejuízo dos quadros referidos na parte final do nº 3 do artº 134º da Constituição.
A intercepção das comunicações telefónicas suscita especiais problemas no plano da privacidade com quem a pessoa alvo esteja a comunicar.
Nos termos do artº 187º,1 do Código de Processo Penal, “a interceção e a gravação de conversações ou comunicações telefónicas só podem ser autorizadas durante o inquérito, se houver razões para crer que a diligência é indispensável para a descoberta da verdade ou que a prova seria, de outra forma, impossível ou muito difícil de obter, por despacho fundamentado do juiz de instrução e mediante requerimento do Ministério Público”, quanto a um grupo de crimes graves, referenciados nesse normativo.
O artº 189º do mesmo CPP determina que o disposto nos artº 187º e 188º é aplicável “às conversações ou comunicações transmitidas por qualquer meio técnico diferente do telefone, designadamente correio electrónico ou outras formas de transmissão de dados por via telemática, mesmo que se encontrem guardadas em suporte digital, e à intercepção das comunicações entre presentes. “
Nos termos do disposto no artº 156º,f da Constituição da República, os deputados têm poderes para requerer a constituição de comissões parlamentares de inquérito, determinando o artº 178º,5 da mesma lei fundamental “as comissões parlamentares de inquérito gozam de poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”.
O texto constitucional é manifestamente infeliz, na medida em que permite sugerir uma espécie de apropriação de poderes que pertencem ao judiciário mas, sobretudo, na medida em que pode ser interpretado numa lógica antidemocrática ou mesmo numa lógica totalitária.
Todos aqueles direitos fundamentais são, em princípio, invioláveis, só podendo ser excecionados por decisão judicial fundamentada com o estrito objetivo da investigação criminal.
Não há, nem na lei nem na constituição nenhuma norma que permita violar aqueles direitos fundamentais sem que haja necessidade de investigar e punir a prática de um crime daquele grupo que legislador excecionou.
É certo que a Constituição determina que as comissões parlamentares de inquérito gozam dos “poderes de investigação próprios das autoridades judiciais”
Só que não é isso que está em causa.
O que está em causa é a adoção de práticas que ofendem direitos fundamentais sem que estejam preenchidos os pressupostos que justificariam tais ofensas e que são, como atrás se referiu, a absoluta necessidade da quebra da garantia constitucional para investigar a prática de crimes.
No nosso edifício constitucional, os direitos fundamentais podem ser afetados em certas circunstâncias, a beneficio de outros direitos ou de outros imperativos constitucionais, como é o caso da investigação criminal.
A concordância prática justifica que uns direitos se reduzam na estrita medida do necessário para que outros sobrevivam.
Não há nenhum indício de crime nas mensagens privadas que o ministro das Finanças e o gestor bancário trocaram.
Tanto quanto se sabe, não combinaram entre si nenhuma operação de branqueamento de capitais, nenhum esquema de corrupção nem nenhuma operação de favorecimento pessoal.
Se o tivesse feito ou se disso houvesse indício, poderiam ser apreendidas as mensagens de SMS; mas não era pela comissão parlamentar. Teria que ser um juiz a ordená-lo em despacho fundamentado.
É que, embora a Constituição confira às comissões parlamentares de inquérito os mesmos poderes de investigação “próprios das autoridades judiciais” o certo é que determina que o sigilo das comunicações é inviolável e que só pode ser quebrado no quadro da investigação criminal e com os limites impostos na lei.
Importa relevar, para além de tudo isso, os direitos dos demais cidadãos.
É evidente que o acesso a mensagens de SMS recebidas ou enviadas por uma pessoa não é cognoscível por via de mera cópia das mesmas, importando, necessariamente um acesso ou aos registos das contas telefónicas do emissor e do recetor ou um acesso aos telefones de ambos.
Tal tipo de acessos só é viável no quadro da investigação criminal e se isso for absolutamente necessário para a investigação de crimes tão graves como são os previstos na lei: crimes puníveis com pena de prisão superior, no seu máximo, a 3 anos; crimes relativos ao tráfico de estupefacientes; crimes de detenção de arma proibida e de tráfico de armas; crimes de contrabando; crimes de injúria, de ameaça, de coação, de devassa da vida privada e perturbação da paz e do sossego, quando cometidos através de telefone; crimes de ameaça com prática de crime ou de abuso e simulação de sinais de perigo; ou de evasão, quando o arguido haja sido condenado por algum dos crimes previstos nas alíneas anteriores.
Ora, ao que parece, a única razão que justifica a apetência da devassa dos referidos SMS é, segundo os media, uma espécie de crime político, não previsto na lei nem tipificado e, inquestionavelmente, sem nenhuma consequência jurídica, se eventualmente se viesse a provar que o ministro tivesse dito que o gestor seria dispensado de apresentar a declaração de património.
É por demais óbvio que o SMS não teria nenhum valor jurídico, ou teria que ser interpretado como uma declaração negocial nula a todos os títulos.
Mas há outros problemas que tanto a devassa como a divulgação dos SMS suscitam.
Todos os cidadãos são titulares de direitos que asseguram a privacidade da sua vida privada, nomeadamente da vida familiar e da vida sexual. Esses valores jurídicos são protegidos pelo artº 192º do Código Penal, que incrimina da devassa da vida privada.
Na mesma linha, o artº 194º do Código Penal incrimina da violação da correspondência e das telecomunicações, punindo quem tomar conhecimento de mensagens que não lhe são dirigidas.
Fora dos quadros legais em que a lei permite a violação da privacidade do domicilio e das comunicações não é admissível qualquer devassa, maxime por motivos políticos.
Os deputados não são polícias e é inaceitável que, num estado democrático de direito, se comportem como agente de recuperação de uma intolerável bufaria.
É prudente que não falemos ao telefone. E é, ainda mais prudente, que não enviemos mensagens de SMS e que apaguemos as que recebemos.
Os fascistas, em comparação com esta canalha, eram uns meninos do coro…
(Por Miguel Reis, in Facebook, 19/02/2017)

A mais recente aquisição do S. C. Freamunde:

Joga em todas as posições e hoje frente ao S. L. Benfica B faz a sua estreia. Todos os Freamundenses esperam uma grande exibição. Depois os críticos diziam que não tínhamos dinheiro para as inscrições no mercado de Janeiro. A prova provada é esta: este é o quinto reforço e o mais valioso.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

A mão por detrás dos arbustos:

mao_arbusto
No livro lançado na quinta-feira sobre os seus anos em Belém, Cavaco Silva não poupou nas palavras sobre a governação de José Sócrates, com quem coabitou de 2006 a 2011. Depois de o DN pedir uma reação do antigo primeiro-ministro à obra de Cavaco Silva, Sócrates respondeu com um texto de opinião que publicamos nesta página.

Nunca um presidente ou primeiro-ministro relatou as conversas tidas entre ambos enquanto exerceram funções. Há boas razões para isso, que vão da boa educação até ao necessário sentido de Estado. A avaliar pelos relatos públicos e bem vistas as coisas, o livro agora publicado é um autorretrato perfeito das consequências que o ressentimento pode ter no carácter de um político.
Não desejo, nem nunca me ocorreu, seguir caminho tão indigno. Já no passado tive de suportar a indecente campanha de um partido da oposição contra mim, atacando-me por não ter falado com o seu líder, quando na verdade tivera com ele numa longa reunião. Fi-lo pelo escrúpulo de não revelar conversas que estava comprometido a não a divulgar.
Ponho de lado as vulgares opiniões políticas expressas no livro pelo autor, que aliás, sempre me enfastiaram. Ponho igualmente de lado outras conversas, na sua maioria distorcidas e falsas, que não passam de vulgar exercício de mesquinhez disfarçado de relato histórico. Mas não posso pôr de lado, pela sua importância e pelo que tem de paradigmático, o inacreditável relato que faz do chamado “episódio das escutas”, sem outro propósito que não seja o de distorcer e falsear a verdade histórica.
Houve, é certo, uma reunião no dia 16 de setembro de 2009, que recordo muito bem. Como poderia esquece-la? Nessa reunião exprimi ao então Presidente o meu protesto por não ter visto desmentida uma grave acusação de escutas que o meu gabinete teria feito ao Palácio de Belém e que o Presidente sabia ser falsa. O Presidente respondeu-me, como aliás faria noutras ocasiões, que não interromperia as suas férias para responder aos deputados do meu partido que tinham criticado a participação de membros da casa civil do Presidente na elaboração do programa de governo do PSD. Retorqui, como é óbvio, que não percebia a ligação entre os dois assuntos. Lembrei também que os senhores deputados “não eram do meu partido”, mas deputados à Assembleia da República, membros de um órgão de soberania, e que só eles poderiam responder por eles, não eu. Insisti no assunto: a notícia das escutas era pessoalmente ofensiva e, estando o país em campanha eleitoral, tinha provocado sérios prejuízos ao Partido Socialista, podendo ter sido evitados se o Sr. Presidente da República a tivesse desmentido. Agastado, o Sr. Presidente entendeu lembrar-me que eu estava a falar com o Presidente de República. Respondi que nunca me esquecia disso, mas que estava ali a falar-lhe como primeiro-ministro, eleito democraticamente e contra o qual se tinha lançado uma falsa e maldosa campanha para que perdesse as eleições. A conversa ficou por aí.
Uns dias mais tarde soube-se a verdade. A publicação de um e-mail permitiu saber que tais notícias tinham sido transmitidas a um jornalista pelo principal assessor de imprensa do Sr. Presidente da República. Estava identificado o executante. Mais tarde, quando este publica as memórias, denuncia o mandante: “Recebi uma indicação superior para o fazer” (pag. 146 do livro de Fernando Lima). Tudo isto é conhecido e está comprovado. Custa acreditar na perfídia que a recente versão do livro contém: afinal, as notícias sobre as escutas teriam sido intencionalmente colocadas na imprensa pela “tenebrosa máquina de propaganda do PS” para, claro está, afetar a credibilidade do Sr. Presidente.
Por mais desprezo que sinta – e sinto – por tal estilo e por tal literatura, não posso consentir que tal deturpação da verdade fique sem resposta. O que se passou foi, tão simplesmente, isto: pela primeira vez na história democrática do país ficou provado que um Presidente concebeu e executou uma conjura baseada numa história falsa, por forma a deitar abaixo um governo legítimo em funções.
Pela sua importância, não devo também deixar de fazer um último comentário. Todos os que acompanharam a vida política na altura da crise política sabem bem que a única preocupação do Sr. Presidente era aquela que revelou na noite da sua reeleição: vingança e desforra. O seu discurso de posse foi o sinal de que a direita precisava para atirar o governo abaixo e provocar eleições. Na Assembleia da República, e pela primeira vez na história democrática, chumbou-se um acordo e um compromisso com as instituições europeias que um governo legítimo tinha conseguido para que o país não fosse forçado a pedir ajuda externa. O Presidente da República de então não tem moral para dar lições de lealdade institucional. Na crise política de 2011, ele sempre foi a mão por detrás dos arbustos.
E por aqui me fico, por agora.
PS: Nunca tinha visto uma transmutação de personagens tão estrambólica: “As reuniões com Soares eram sonolentas.” O livro não é uma prestação de contas, mas um ajuste de contas.
(José Sócrates, in Diário de Notícias, 18/02/2017)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A NORMAL ANORMALIDADE!

Eu vou escrever, estou a escrever aliás, este texto sem rede, isto é, sem qualquer preparação anterior e apenas porque me deu um impulso. Acreditem ou não, é a pura verdade.
E vem a propósito do caso dos já mais que fedorentos SMS,s do Ministro das Finanças para o anterior e autoexcluído presidente da CGD , e que um emissário chamado Lobo Xavier, distinto fiscalista, famoso advogado e digno zelote do bem e da moral públicos, foi levar ao Presidente.
Eu já diversas vezes no meu BLOG, neste Blog, falei deste tema- da anormalidade tornada coisa normal- e lembrei-me que, há muitas anos atrás, numa empresa onde trabalhei, recebi um telemóvel que era um “upgrade” de um superior, como era normal, e fui confrontado com o facto de ele não se ter dado ao cuidado de limpar as mensagens, SMS.s, que tinha guardadas.
Que é que eu fiz? O NORMAL! Ao ler a primeira palavra da primeira mensagem apaguei-as logo todas! O que qualquer pessoa NORMAL faria! E, como pessoa NORMAL, foi o que fiz. Não me diziam respeito, não me interessavam, não me acrescentavam nada (segredos tenho eu muitos e que guardarei para toda a vida, tal como fui ensinado) e, portanto, nunca me passando pela cabeça alguma vez as utilizar como “arma” fosse para o que fosse, apaguei tudo.
Fiz um exercício de natureza da normalidade, mas que agora, nos tempos que correm, não é nada normal. Isto é, quanto mais soubermos dos outros, supondo serem semelhantes a nós, mais nos defendemos, mais nos protegemos e, assim, mais os podemos atacar. É a nova normalidade, mas que eu continuo a considerar ANORMAL.
Logo às vinte e três vou ouvir a Quadratura do Círculo e constatar a explicação que terá Lobo Xavier para o facto de, substituindo o interessado, António Domingues, ter sido ele, qual emissário, a ter levado a “carta a Garcia”, em vez do próprio, único e dono senhor do seu telemóvel e respectivos SMS,s. Normal? Não, e de todo! Um frete e um desprezível frete. E digo-o antes de o ouvir pois, como sempre se diz, a primeira impressão é a que conta.
Atitude desprezível, não tenho dúvidas mas, pelo que se tem vindo a constatar, do âmbito da nova NORMALIDADE! Mas ANORMAL, repito.
A gente na vida e por força das circunstâncias, tais como o dever de obediência a superiores ou a regras, como o dever de solidariedade em causas comuns, como o dever da integridade ou mesmo como dever da lealdade perante interesses que são de todos (numa empresa, numa família, em qualquer organização e mesmo no Estado), temos a exigência máxima da sobriedade e do sigilo. E do recato também. E, mesmo, às vezes, não globalmente concordando, acatamos e cumprimos o nosso dever.
Mas nada disso desculpa o conúbio, o saber privilegiado e o exercício desse conhecimento pessoal, em prol de algo que, à partida, não lhe diz respeito. Ignóbil é a palavra que me surge.
Como ignóbil, não falando já do desejado aproveitamento da nossa Direita deste lamentável caso, é mais esta tentativa de tornar NORMAL tudo aquilo que, sendo da esfera pessoal, passa a ANORMALIDADE, em todos os sentidos que os queiramos definir, seja do ramo da moral, da ética, do respeito pelo outro, pela sua intimidade, pela sua reserva e pela sua integridade, a fazer parte da NORMALIDADE.
E aqui reside a minha maior tristeza…

Défice de 2,1%: o grande silêncio:


nicolau
De repente, o ministro das Finanças anuncia que o défice em 2016 ficou não em 2,8%, 2,5%, 2,4% mas em 2,1% e o grande debate é em torno dos sms trocados entre Mário Centeno e o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues. De repente, sabe-se que o défice passou de 3,1% em 2015 para 2,1% no ano passado e o que se discute acaloradamente é se haverá ou não uma nova comissão parlamentar de inquérito, desta vez incidindo especificamente nas trocas de mensagens entre Centeno e Domingues. De repente, devíamos estar a falar de coisas importantes para o país mas os noticiários e os comentários são dominados por uma troca de sms entre duas pessoas.
Sim, claro que é importantíssimo saber o que Centeno disse a Domingues. Claro que é óbvio que Domingues pôs como condição não apresentar, nem ele nem a sua equipa, as declarações de rendimentos e património. Claro que o ministro ou alguém por ele aceitou essa exigência. Claro que a decisão de alterar o estatuto de gestor público para responder a isso foi uma péssima e canhestra ideia. Claro que quem bichanou ao ouvido de Marques Mendes a publicação do diploma foi o Presidente da República. Claro que a partir daí, Centeno, que nunca quis mentir, se enredou em explicações cada vez mais sofridas e menos credíveis, até terminar com o famoso “erro de percepção” em que terá induzido Domingues. E agora? Pois, e agora?
Nunca nenhum político mentiu no parlamento? Nunca nenhum político mentiu numa comissão parlamentar de inquérito? Não vamos mais longe: no Governo anterior foi tudo de uma enorme lisura e verdade? O que Pedro Passos Coelho disse na campanha eleitoral foi o que fez depois quando chegou ao poder? Maria Luís Albuquerque nunca torceu a verdade no caso dos swaps? Cavaco Silva, no livro que ontem lançou, conta exactamente o que se passou aquando do famoso caso das escutas ao Palácio de Belém?
A direita tem desenvolvido nos últimos anos campanhas sistemáticas para denegrir os dirigentes de esquerda. Acusá-los de serem mentirosos é o primeiro passo. Já aconteceu com António Costa (vide as recentes acusações de Assunção Cristas no parlamento ao primeiro-ministro, quando se conhece o historial de Paulo Portas na sua relação com a verdade). Mas quando não chega vai-se mais longe. O lamaçal que foi lançado sobre vários dirigentes do PS durante o caso Casa Pia foi das manobras mais sujas que a democracia portuguesa conheceu.
Nada disso justifica as contradições de Centeno, nem que tenha aceite as exigências de Domingues, nem que tenha permitido que uma sociedade de advogados elaborasse ela própria o diploma. Tudo erros, tudo asneiras. Mas o Presidente da República deu sibilinamente o caso por encerrado e o primeiro-ministro mantém a confiança em Centeno.
Na verdade, o que a direita não suporta é que Centeno tenha provado que era possível trilhar outro caminho económico, com menos sacrifícios para os portugueses, e mesmo assim conseguir reduzir o défice para valores historicamente baixos, o mais baixo em 42 anos de democracia, coisa que a direita nunca conseguiu até agora. O que a direita não perdoa a Centeno é que tenha conseguido fazer isto colocando a economia a crescer um pouco mais do que se esperava, com o regresso do investimento, a subida das exportações, a melhoria do clima económico e do indicador de confiança.
É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros.

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/02/2017)

Visita a Freamunde do Primeiro-ministro:

Visita do Primeiro-ministro a Freamunde:

Decorreu hoje no Bairro Social do Outeiro em Freamunde a Abertura dos Concursos para a Reabilitação Urbana dos Bairros Sociais inserido no Programa 2020. Estiveram presentes o Primeiro-ministro, Ministro das Infra-estruturas, Secretário de Estado do Ambiente e um Professor da Universidade de Engenharia do Porto como oradores.

Depois da recepção aos convidados, onde foram entusiasticamente aplaudidos pelos muitos presentes, e na companhia do Presidente da Câmara de Paços de Ferreira e Presidente da Junta de Freguesia de Freamunde, fizeram uma visita ao referido Bairro para se inteirarem das condições de habitabilidade dos seus moradores.

Este Bairro já tem cerca de quarenta anos e como é de esperar está necessitado de obras há vários anos. Como a palavra diz (Bairro Social) é compreensível que seja pertença da Câmara Municipal de Paços de Ferreira e é sabido como as câmaras estão com dificuldades de tesouraria. Assim o Programa 2020 vem dar uma ajuda aos Municípios para deitar a mão à conservação dos referidos Bairros Sociais.

Depois deslocaram-se para Escola Básica e Secundária, D. António Taipa, de Freamunde, onde discursaram os referidos oradores e foi mostrado um vídeo com o plano da Reabilitação Urbana dos Bairros Socias Portugueses. Bastante aplaudidos pela assistência nas suas intervenções.

Freamunde mais uma vez deu uma prova de demonstração de bem receber. É evidente que não havia motivos para receber mal o Primeiro-ministro mas sabe-se que em muitas terras aparece sempre um atrevido a mandar umas “bocas”. Tudo decorreu bem e tenho a certeza que o Primeiro-ministro ficou com boas referências de Freamunde.

Espera-se agora o arranjo do Bairro do Outeiro para os seus moradores terem melhores condições de habitabilidade e a cidade de Freamunde beneficiar com esses asseios.

Um agradecimento ao Primeiro-ministro, Presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, pela opção de Freamunde para este evento. O Presidente da Câmara sabe que pode contar com Freamunde porque é uma mais-valia para qualquer evento a realizar.

Freamunde é assim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O último pote:

um-artista
                                                                Um verdadeiro artista
A crer naquilo que se vai ouvindo a propósito do folhetim Domingues este senhor foi traído por um malandro chamado Centeno (o que se poderia esperar de um mafarrico com um apelido espanhol que em português é centeio? É óbvio que se teria de ouvir muito burro a zurrar com cheiro a palha) prometeu-lhe uma CGD com ordenados e prémios iguais ao do sector privado e sem ter de suportar a curiosidade da populaça, com vícios delegados em jornalistas do CM ou do Sol.
Vendo o seu amigo traído, surge um bom cristão, um tal Lobo Xavier que aparece sempre que cheira a palha, personalidade que como todos sabemos anda neste mundo movido pelo desejo de fazer as boas acções necessárias para ter pontos suficientes no seu cartão de cliente do Céu, a fim de poder abrir as portas do dito, dispensado de terços e penitências e outros bilhetes.
Toda a gente sabe que Lobo Xavier é o cristão mais franciscano que anda acima da terra, homem  despojado de riquezas e mais isolado dos vícios do mundo do que os monges da Cartuxa.
Os nossos deputados, gente que cada vez que dizem uma mentirita a primeira coisa que fazem quando chegam a casa é apertar as partes íntimas com o cilício devidamente certificado e desinfectado, estão indignados com a hipótese de o mafarrico espanhol ter dito uma mentira dentro desse santuário da verdade que é o nosso parlamento. Num hemiciclo onde metade das intervenções resultam de pedidos da palavra em nome da defesa da honra, o pecado da mentira é um pecado mortal, e não admira a reacção digna de meretrizes ofendidas a que temos assistido.
Não, o Domingues e os seus amigos, gente que como se sabe pertence a essa nobre estirpe de banqueiros portugueses, verdadeiros exemplos de honestidade e competência, como se pode ver pela situação brilhante em que estão todos os bancos portugueses ou que o eram em tempos mais recuados, não iam gerir a CGD para ganharem prémios chorudos, como fizeram muitos gestores da nossa impoluta banca. Iam servir o país e como gestores franciscanos e só se sentiam obrigados a prestar contas a Deus porque só a isso está obrigado um bom cristão.
Não, o Lobo Xavier não tem o mais pequeno interesse nos muitos milhões da CGD, nem ele nem os muitos interesses que representa teriam interesse nos créditos, na litigância, nos PER ou nos muitos negócios da CGD. A sua presença no processo foi apenas para divulgar os emails e os SMS privados do Centeno, às mijinhas, porque o seu amigo Domingues é muito envergonhado e não se sente à vontade com jornalistas e políticos da direita, até porque o pobre banqueiro começou a sua escolinha no MRPP.
Não, os muitos milhões da CGD seriam um fardo para qualquer um, um trabalho muito penoso. A má cobrança de muitos milhões em dívida e os muitos milhões disponíveis para muitos créditos não interessavam a ninguém. A própria presença de Lobo Xavier e de muitos dos deputados esganiçados da direita são a maior garantia de que qualquer relação entre aquilo que se passa e a vontade de ir ao pote é pura coincidência.
Enfim, por este andar até me vou tornar um devoto do Paulo Macedo, comecei por defender esse Domingues e dou comigo a sentir-me na obrigação de uma pesada penitência, dando graças a Deus por terem metido o Macedo na CGD; ou estou muito enganado ou com essa mudança salvei o que me resta dos subsídios de férias e de Natal.

(In Blog O Jumento, 16/02/2017)